A Escrava

Fugundes Varela

Passava muda e cauta
Prestando atento ouvido,
Pela azinhaga estreita,
Ao mínimo ruído;
Farrapos asquerosos
Só tinha por vestido.

Serena, – vagarosa
A lua caminhava,
E a luz das mais estrelas
Esplêndida ofuscava…
– Febe! clareia o rosto
Dessa infeliz escrava!

Talvez que das alturas
Alguém a voz me ouvisse,
Quando surpreso, aflito,
Estas palavras disse;
Talvez Satã no abismo,
Hirto, convulso, risse.

Da núbia a escura filha
Parou. – Quanta agonia
No gesto, no seblante,
Minha alma descobria!…
Múmia de chagas vivas
Seu corpo parecia!

Golilha férrea, angustia,
Prendia-lhe a garganta
– Sinistra parasita –
Que arroxa humana planta!…
Caia-lhe de um ombro,
Rota, nojenta manta.
O fogo da demência

Os olhos lhe queimava,
Um estertor convulso
O peito lhe agitava.
Cristão! – falou, tem pena
Desta erradia escrava.

– As chagas não curadas,
O medo dos açoites
Fazem-me errar, sem alma,
Cristão, noites e noites!…

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