Chuvas de Abril
por Rui Di Ribeira
Não foram até março, as chuvas. As águas não fecharam o verão, como dizem por aí. Depois de um janeiro e um fevereiro quase enxutos, e de um março de águas tímidas, elas prosseguem em abril, fininhas e teimosas, e querem ficar mais uns dias.
Já estou me acostumando a essa canção da chuva de abril quase todas as noites. Ontem, suspendi o texto e fui para a janela ouvir aquele chuá mansinho de chuva molha-bobo. Ela demorou um pouquinho, mas deu as caras. E, logo, logo, sombrinhas, guarda-chuvas, pés descalços e uma legião de homens negros como a noite tomaram as calçadas.
Estou aqui desde as 5h da manhã, esperando o ônibus que me levará ao trabalho. Um frio doído e úmido está arrochando os minutos. Tosses, catarros, espirros, pragas, maldições, bênçãos — de tudo se pode ouvir.
Mas pode-se também ouvir o silêncio (oh, é possível ouvir o silêncio) dos que passam na sua luta pelo pão de cada dia. E ver as serras além.
Elas estão lá, vestidinhas de noivas e úmidas neste primeiro de maio, que promete levar um pouco mais adiante as águas de abril. Nada de novo sob as vaidades do velho chapéu do sol, dizem os “normais”, às janelas de suas casas modernas. De minha parte: que as chuvas grandes, com suas lamas e mortes, não venham. Há o perigo de ser mais um caso de águas de maio fechando o verão.
